terça-feira, 13 de agosto de 2013

ARTIGO INTERESSANTÍSSIMO SOBRE O NARCISISMO, REDES SOCIAIS E EMPRESAS... : A praga do espelho - Thomaz Wood Jr.

A praga do espelho Revista Carta Capital - 05/08/2013 Thomaz Wood Jr. As manifestações recentes no Brasil trouxeram à tona frustrações e insatisfações. Elas também revelaram comportamentos narcisistas entre as hordas mais jovens que tomaram as ruas, armadas de smartphones, ávidas por registrar seus 15 segundos de fama nas mídias sociais. O fenômeno faz eco à constatação de diversos estudos científicos, de que vivemos sob o império de Narciso. Bill Davidow, em artigo publicado no website da revista norte-americana The Atlantic, em março de 2013, compilou estudos e declarações de especialistas em torno da magnitude da epidemia. Jean M. Twenge e W. Keith Campbell, autores do livro The Narcissism Epidemic, mencionam uma pesquisa com 37 mil estudantes universitários. Segundo o estudo, os traços de personalidade narcisista cresceram tanto quanto a obesidade nas últimas décadas. Shawn Bcrgman. professor de Psicologia, também constatou em pesquisas que o nível de narcisismo entre os jovens contemporâneos é mais alto do que nas gerações anteriores. Pesquisadores da Universidade de Western Illinois, mencionados pelo jornal inglês The Guardian, em artigo também de março de 2013, estudaram comportamentos associados ao narcisismo (como a vaidade, o senti mento de superioridade, o exibicionismo, o senso de merecer respeito e a tendência de manipular e tirar vantagens dos outros) entre 294 estudantes. O estudo revelou correlações positivas entre tais traços e os modos de uso do Facebook. Um trabalho de autoria de Jacqueline Z. Bergman, James W. Westerman e Joseph P. Daly, comentado nesta coluna há três anos, constatou: os estudantes universitários norte-americanos, especialmente os alunos dos cursos de Administração de Empresas, apresentam níveis de narcisismo próximos daqueles de estrelas de cinema e de músicos populares. Um estudo mais recente, também liderado por Bergman, constatou uma relação positiva entre narcisismo e materialismo: quanto maior o materialismo, menor a ética ambiental. Os jovens estão se tornando cada vez mais narcisistas e as mídias sociais provêm uma plataforma para suas exibições. Elas se transformaram em vitrines constrangedoras para manifestações narcisistas e comportamentos infantis. E os narcisistas parecem criar um padrão de comportamento para os demais, No centro da epidemia, a fotografia parece ter sido reinventada. Antes, uma foto podia ter a banalidade simpática de uma cena familiar, tocante por seu significado pessoal, ou a aura de um registro artístico, emocionante pelo objeto registrado ou por sua composição. O fotógrafo era o agente invisível, a equilibrar com maior ou menor talento sua imaginação e suas intenções com o mundo de movimentos, luzes e sombras à sua frente, Este escriba só tomou contato com a aparência física dos mestres Henri Cartier-Bresson e Robert Capa anos depois de começar a admirar suas imagens. Na era das mídias sociais, a fotografia parece ter se transformado em qualquer composição que inclua o fotógrafo: eu e meu gato, eu e meu risoto. eu no Taiti, eu na maratona... eu na Paulista! É o estranho mundo da iPhoto. Naturalmente, não se pode culpar exclusivamente as mídias sociais e os smartphones pela praga do espelho. A tecnologia garante o meio o induz a mensagem. mas a epidemia se deve também a questões relacionadas à educação e ao ambiente sociocultural. A permissividade dos pais e a satisfação imediata dos mais insípidos desejos das crianças a alimentam. Simultaneamente ,o pseudouniverso das celebridades faz o narcisismo parecer normal. transformando-o em modelo de conduta. Quais as consequências? Á autoconfiança e um grau “administrado” de narcisismo podem contribuir para aumentar a nossa iniciativa e autonomia, ajudar a superar as frustrações do dia a dia. Além de certo ponto, contudo, o narcisismo pode se tornar nocivo. Conforme observou o pesquisador Roy Lubit hámais de dez anos. indivíduos que sofrem de “narcisismo destrutivo" dão importância excessiva a si mesmos, são arrogantes e se orientam exagerada mente para a conquista de poder e riqueza. Muitas empresas cultivam e cultuam tais tipos. Elas podem, porém, pagar um alto preço por isso. Narcisistas podem ser caprichosos, egoístas, instáveis, tóxicos e chatos, muito chatos.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Thomaz Wood Jr.
16.10.2011 18:13
PENSAR DÓI?
Em texto publicado no New York Times, Neal Gabler, da Universidade do Sul da Califórnia, argumenta que vivemos em uma sociedade na qual ter informações tornou-se mais importante do que pensar: uma era pós-ideias. Gabler é o autor, entre outras obras, de Vida, o Filme (Companhia das Letras), no qual afirma que, durante décadas de bombardeio pelos meios de comunicação, a distinção entre ficção e realidade foi sendo abolida. O livro tem o significativo subtítulo: Como o entretenimento conquistou a realidade.
No texto atual, Gabler troca o foco do entretenimento para a informação. Seu ponto de partida é uma constatação desconcertante: vivemos em uma sociedade vazia de grandes ideias, leia-se, conceitos e teorias influentes, capazes de mudar nossa maneira de ver o mundo. De fato, é paradoxal verificar que nossa era, com seus gigantescos aparatos de pesquisa e desenvolvimento, o acesso facilitado a informações, os recursos maciços investidos em inovação e centenas de publicações científicas, não seja capaz de gerar ideias revolucionárias, como aquelas desenvolvidas em outros tempos por Einstein, Freud e Marx.
Não somos menos inteligentes do que nossos ancestrais. A razão para a esqualidez de nossas ideias, segundo o autor, é que vivemos em um mundo no qual ideias que não podem ser rapidamente transformadas em negócios e lucros são relegadas às margens. Tal condição é acompanhada pelo declínio dos ideais iluministas – o primado da razão, da ciência e da lógica – e a ascensão da superstição, da fé e da ortodoxia. Nossos avanços tecnológicos são notáveis, porém estamos retrocedendo, trocando modos avançados de pensamento por modos primitivos.
Gabler critica o afastamento das universidades do mundo real, operando como grandes burocracias e valorizando o trabalho hiperespecializado em detrimento da ousadia. Critica também o culto da mídia por pseudoespecialistas, que defendem ideias pretensamente impactantes, porém inócuas.
No entanto, o autor aponta que a principal causa da debilidade das nossas ideias é o excesso de informações. Antes, nós coletávamos informações para construir conhecimento. Procurávamos compreender o mundo. Hoje, graças à internet, temos acesso facilitado a qualquer informação, de qualquer fonte, em qualquer parte do planeta. Colocamos a informação acima do conhecimento. Temos acesso a tantas informações que não temos tempo para processá-las.
Assim, somos induzidos a fazer delas um uso meramente instrumental: nós as usamos para nos manter à tona, para preencher nossas reuniões profissionais e nossas relações pessoais. Estamos substituindo as antigas conversas, com seu encadeamento de ideias e sua construção de sentidos, por simples trocas de informações. Saber, ou possuir informação, tornou-se mais importante do que conhecer; mais importante porque tem mais valor, porque nos mantêm à tona, conectados em nossas infinitas redes de pseudorrelações.
As novas gerações estão adotando maciçamente as mídias sociais, fazendo delas sua forma primária de comunicação. Para Glaber, tais mídias fomentam hábitos mentais que são opostos àqueles necessários para gerar ideias. Elas substituem raciocínios lógicos e argumentos por fragmentos de comunicação e opiniões descompromissadas.
O mesmo fenômeno atinge as gerações mais velhas. Nas empresas, muitos executivos passam parte considerável de seu tempo captando fragmentos de notícias sobre mercados, concorrentes e clientes. Seu comportamento é o mesmo no mundo virtual e no mundo real: eles navegam pela internet como navegam por reuniões de negócios. Vivem a colher informações e distribuí-las, sem vontade ou tempo para analisá-las. Tornam-se máquinas de captação e reprodução. À noite, em casa, repetem o comportamento nas mídias sociais. Seguem a vida dos amigos e dos amigos dos amigos; comunicam-se por uma orgia de imagens e frases curtas, signos cheios de significado e vazios de sentido.
O futuro aponta para a disponibilidade cada vez maior de informações. A consequência para a sociedade, segundo Gabler, é a desvalorização das ideias, dos pensadores e da ciência. A considerar a velocidade com que livros e outros textos estão sendo digitalizados e disponibilizados na internet, estamos no limiar de ter todas as informações existentes no mundo ao nosso dispor. O problema é que, quando chegarmos lá, não haverá mais ninguém para pensar a respeito delas.
Pode-se acusar o ensaísta de nostalgia infundada ou ludismo. Porém, ele não está só. Felizmente, há sempre um grupo de livres pensadores a se colocar contra o conformismo massacrante das modas tecnológicas e comportamentais, nesta e em outras eras.

Carta Capital nº668
http://www.cartacapital.com.br/blog/politica/pensar-doi/?autor=14

Dino Sapiens

A etimologia da palavra Dino remete ao grego déinos, terrivelmente grande.
Sapiens aqui refere-se ao Homo Sapiens (homem sábio, em latim), do qual nós, seres humanos, primatas bípedes, descendemos. Há controvérsias (quanto ao sábio, é claro)....
A crise de conhecimento e a arrogância da desinformação em uma era rasa de hipervisibilidade me motivou a reproduzir artigos que acho interessantes; mesmo que não tenha espaço nos dias de hoje, a sabedoria ainda é grande e deve ser compartilhada e debatida.